terça-feira, 12 de maio de 2009

Voltamos a apresentar.

Ana gostava dos seus cabelos longos e muito pretos. Sabia usa-los. Em contraste com a pele branca, eram um convite ao sexo. E sexo com Ana era o que quase todos queriam.

À noite, Ana deixava os lábios vermelhos e os olhos pretos. A saia na metade da coxa marcava a bunda na medida certa. As pernas à mostra dançavam sem parar. Sua blusa era um verdadeiro atentado ao pudor.

Mas, os olhos de Ana eram tristes. Nada a ver com problemas de auto-estima ou respeito próprio. Era do tipo que não media conseqüência de seus atos – e isso não a incomodava em absoluto. Não levava desaforo pra casa, devolvia na hora palavras ou gestos desagradáveis com a mesma naturalidade com quem comia batatas fritas.

Seu prazer em responder aumentava conforme a “autoridade” do interlocutor. E como fazia isso bem! Ana tinha tudo na ponta da língua. Conhecia seu poder, que os incautos acreditam se limitar ao sexo. E os incautos sofriam e sofriam ao descobrir que já não mais podiam viver sem ela...

Ana era forte, dessa força que também sabe ser doce. Era puta e santa ao mesmo tempo em tudo o que fazia na vida. O boquete despudorado ficava perfeito em contraste com a delicadeza das mãos, com a tristeza dos olhos. Assim como o preto abusado dos cabelos sobre a singela pele branca. Deixava de comer por um amigo, mas, não pensava duas vezes caso tivesse de matar alguém. Chorava e sorria na mesma medida. Era inteira, completa, a melhor pecadora que Deus teria criado, se ele existisse.

Ana sabia, sempre soube, sempre, sempre, sempre, desde pequena que era exatamente sua dualidade que enlouquecia homens e mulheres. Com domínio total de cada milímetro do corpo, ela tinha a pose e o toque exatos para arrancar o que quisesse de qualquer um. E arrancava, sem dó, no instante certo, salivas, suores, lágrimas, gozos, sorrisos, tapas, beijos, amores e ódios.

Mas, os olhos de Ana, pintados ou não de preto, eram tristes.

Os incautos não entendem porque os olhos de Ana são tristes. A falta de amplidão não lhes permite distinguir meninas que fingem de meninas que sentem. Rotulam Ana, como se ela fosse um rígido personagem, como se ela fosse uma daquelas mulheres com quem estão acostumados a lidar, decoradoras de frases e poses. Ah, os incautos... Os incautos não conseguem entender que Ana é mais. Melhor mesmo, por que não dizer?

Se vocês pudessem conhecer Ana como eu conheço – e não sendo incautos – saberiam o que quero dizer. Chego a suspeitar que Ana não seja desse mundo. Se um dia ela me dissesse “Ei, eu vim de Júpiter”, eu responderia “Não, você veio de Vênus”.

E eu tenho certeza de que ela jogaria a cabeça pra trás numa risada e se calaria. Nem sim, nem não. Ana mudaria de assunto. Amarraria os cabelos pretos e longos no alto da cabeça e pisaria forte com seus tamancos nas pedras portuguesas do centro da cidade.

Mesmo sem entender os olhos de Ana, até os incautos se descobrem, antes ou depois, apaixonados por ela. Não, obcecados! E sentem raiva. Eles existem e têm várias idades, tamanhos e doenças. E quando sentem raiva atacam-na. E ela ri. Não por maldade, mas porque não pode tomar outra atitude. Quando Ana não tem mais o que fazer, ela oga a cabeça pra trás e ri.

Há os que felizmente entendem não só os olhos, como tudo mais o que há em Ana. Há os que não a rotulam, os que enxergam a vida com visão sem cortina, sem receita, sem manual. A esses ela entrega seu coração com um prazer tão intenso quanto corajoso. Ela entrega sua existência, com toda volúpia que esse ato exige. E só esses percebem porque seus olhos são tristes. Não, ela não perde a personalidade nem fica submissa. Não sejam como os incautos, não misturem conceitos, não rotulem, não pensem que já viram, ouviram e aprenderam tudo. Ninguém sabe nada antes de conhecer Ana. Ninguém, nada!


Autor desconhecido.

2 comentários: